seta

debaixo do carro
o único pulso ainda sentido
vem de aros e fios
embaraçados

gastos
tristes
e amarelados

por sinalizar
no máximo volume
a fuga de uma vida
com refrão
graceless

(Ouvindo “Graceless – The National”)

Atlântico

de quente
são só tuas águas
pois frio é o fado
que me faz suportar

traga-me de volta
minha carne marcada
meu ópio diário
o riso que me roubou

ou cruzo-te a nado
incessantemente
além de espírito
por demais amar

(Ouvindo “Hoppípolla – Sigur Rós”)

Pensão

No armário de visitas
Junto às mantas
E moletons velhos
Estão lá

Uma toalha amarela
E meu amor
Ambos bordados e guardados
Ambos lavados de dor

(Ouvindo “Für Hildegard von Bingen – Devendra Banhart”)

Panorama

“Ultimamente têm passado muitos anos”. Minha esperança se resume a papéis de cartas já amarelados e sequer rascunhados. Não. Juro que está tudo bem. Esses olhos tristes, ancorados em cílios, eu já nasci com eles. Essa gargalha vagabunda e vil, agora, pelo menos, é inocente. Guardo cada prego que arranco dos tapumes que tenho no peito na mesma caixa de sonhos tortos e enferrujados que já lasquei de mim. Está escrito nela: “para sempre”. Mas é de papelão. Por mais premeditado que fora, as capsulas douradas continuam na rua, fedendo pólvora e cumpliciando verdades. Esfolada a bucha e cloro, minha autoestima bordô resiste e ainda mancha a calçada. Cria pegadas sujas e irreversíveis em todos que pisam e passam por ela. Lembranças restam em mim como negativos de fotos, vergonhosamente intactas e sedentas por luz. Por revelarem uma vida que, dolorosamente, custo a acreditar que as mesmas cores e tons eu alcancei. E o pior: de modo que nunca quis. Ser só, frio, racional, porém feliz. Comprei óculos escuros.

(Ouvindo “This Night Has Opened My Eyes – The Smiths”)